Por: Jean Marcel Ragugnetti Furlaneto
e-mail: jeanmarcelfurlaneto@gmail.com
Diferentemente da soja, que se beneficia do rizóbio, o estudo da possibilidade de se descobrir, e produzir em escalas industriais um microorganismo que viabilizasse um inoculante em gramíneas remonta ao século passado. Um grupo de pesquisadores liderados pela cientista Johanna Döbereiner, no km 47 da antiga Rio-São Paulo, descobriu que alguns microorganismos associados ao sistema radicular de gramíneas, fixavam nitrogênio, mesmo sem formações nodulares. Após esta descoberta, e anos de estudo, em 1966 publicavam-se as primeiras pesquisas com resultados destes microorganismos, que habitavam a rizosfera de batatais (Paspalum notatum), sendo descritos então como espécie Azobacter paspali. Após dez anos, através de técnicas científicas aprimoradas, e empregando novos meios de cultura, foram descobertos novos gêneros de diazotrófos nos solos. Datava daí o surgimento do Azospirillum brasilense, assim chamado como forma de homenagear a terra do seu descobrimento.

Mas aí nos veem uma pergunta crucial: Por que será que levamos 35 anos para que o Brasil comercializasse o primeiro produto inoculante utilizando esta espécie? Como diz o ditado popular, “é preciso ver para crer.” A ausência de nódulos foi o primeiro fator que “emperrou” o processo. Após anos de estudos sobre a espécie, foi observado que havia um grande efeito na produção de fito-hormônios capazes de modificar a taxa de crescimento de raízes. Daí o termo mais genérico hoje utilizado: bactérias promotoras de crescimento de plantas (BPCP). O segundo fator, segundo meu ponto de vista, foi o baixo desenvolvimento tecnológico-cultural tanto dos produtores quanto do corpo técnico, que em detrimento a utilização de tecnologia biológica, recomendava a utilização de fertilizações químicas, que até então apresentavam baixo custo diante da nova tecnologia. O cenário atual, tem proporcionado uma oportunidade ímpar, que dificilmente veremos igual: insumos químicos com altos custos, carência de oferta destes, e uma evolução imensa de produtos biológicos ligados a agricultura.

A utilização de inoculantes a base de Azospirillum brasilense pode ajudar a agricultura brasileira a alcançar uma maior independência dos insumos importados, e ao mesmo tempo propiciar aumentos vertiginosos de produtividade, sem a necessidade de expansão de área cultivada. Aqui não estamos nos restringindo a utilização do gênero de bactérias às culturas gramíneas. A utilização destes, consorciadas aos inoculantes baseados em Bradyrhizobium japonicum, permitem as leguminosas, e aqui essencialmente falando do carro chefe soja, alcançar números que talvez não esperávamos.
A coinoculação em soja, ou seja, a associação de bactérias Bradyrhizobium com Azospirillum promove maior desenvolvimento do sistema radicular das plantas. Consequentemente devemos esperar, nodulação precoce e mais abundante, aumento da fixação biológica de nitrogênio, em razão da maior nodulação, maior absorção e aproveitamento da água e de fertilizantes, maior tolerância a estresses ambientais, como a seca, maior vigor das plantas, e por conseguinte aumento da produtividade. Além disso, a coinoculação é uma tecnologia ambientalmente sustentável e segura.
Mas quando nos referimos a coinoculação, nos dias atuais, devemos nos desprender do conceito travado em Bradyrhizobium com Azospirillum. Porque? O mercado do agronegócio tem sofrido uma evolução sem precedentes, e atualmente temos inúmeros tipos de inoculantes, baseados em uma outra infinidade de microorganismos. Atualmente temos disponíveis no mercado, e em nosso portfólio, produtos baseados em Pseudomonas fluorescens, Bacillus spp., entre outros apenas para começarmos. Além disso, a evolução dos processos bioquímicos fabris, nos proporcionou o surgimento de inoculantes já compostos por mais de um microorganismos no mesmo produto. Mas isto, já cabe um novo artigo, e uma discussão ainda mais ampla!
